PARÊNTESES, Dr. Fatih KARAMAN

Traduzido do francês por Joana Salgado Silva

domingo 27 de Setembro de 2009, por Fatih Karaman

 

PARÊNTESES

Porquê este título? Há alguns meses atrás, numa manhã cinzenta de Alsácia, fui para o meu país.

Mas “um país”, não significa nada, apenas uma generalização, às vezes, uma abstracção. Quando falamos dos “nossos países”, falamos de facto de alguns lugares e paisagens que conhecemos. Uma cidade, um bairro, uma beira-mar... Também falamos de alguns homens e mulheres que nos são caros...e talvez, de amores, amizades ou feridas do coração.

Nesta manhã cinzenta de Alsácia, a minha destinação não era este país; mas sim uma terra que não conhecia onde me considerei, desde o primeiro ao último dia, um passageiro.

Com efeito, eu só estava lá para cumprir o meu serviço militar.

E lá, perto da fronteira iraniana, a um passo do monte sagrado de Ararat, encontrei-me encerrado dia e noite num hospital durante dois meses onde exercei a psiquiatria, sendo ao mesmo tempo testemunho das condições em que as pessoas viviam, combatiam, se feriam e às vezes morriam...

Sentia que não pertencia a este clima selvagem, a esta cidade e ainda menos a esta guerra sem nome entre curdos e turcos que dura desde há cerca de dez anos.

O facto de ser um passageiro obrigatório para um tempo determinado, de me encontrar fora do meu próprio espaço-tempo pessoal, qualifiquei-o – ainda estava lá – de parêntese.

Hoje, se tento reabrir este parêntese, é apenas para lhes falar de alguns casos – neuróticos traumáticos – desta região perdida. Mas também para falar dos parênteses que encontramos cada dia entre os nossos pacientes: ora eternamente abertos e nunca fechados, levando a fazer de uma vida um imenso parêntese, ora florindo como os cogumelos que saem da terra num discurso onde só encontramos uma multidão de detalhes; ora secretos e escondidos até mesmo ao próprio autor que esgota o seu tempo em pô-las em evidência... Para voltar ao nosso assunto de hoje: o parêntese do sujeito traumático pode ser comparado a uma pequena célula onde o homem se encontra um dia preso para sofrer, às vezes eternamente, de uma das numerosas facetas do horror, continuando porém a olhar através das grades da sua prisão, para o exterior...a vida, a sua própria vida doravante tão inacessível...

Dado que o nosso objectivo, durante este congresso, é ultrapassar se possível uma tal metáfora e compreender as razões do reaparecimento deste estado chamado “neurose traumática”, também vou tentar começar a minha exposição, continuando com a imagem da minha metáfora, por uma série de perguntas que me ajudarão, pelo menos eu espero, a orientar-me neste terreno ainda pouco conhecido.

Qual será o crime cometido pelo sujeito? Será um crime antigo ou recente? Haverá realmente um crime do qual se deveria falar?

Quem constrói as paredes desta prisão e em que consistem as suas funções?

Qual será a relação do prisioneiro com o seu próprio sofrimento e com o horror que o provocou? Vejamos então os nossos casos clínicos para procurar respostas...

Caso clínico (1)

Trata-se de um jovem executivo (alferes) que se dirige ao hospital por iniciativa própria por causa de “irritabilidade” que dura desde há cerca de quinze dias. O que quer ele dizer com irritabilidade?

Responde-me que se enerva rapidamente com os outros, e às vezes por motivos sem importância. Diz-me também que não suporta as ordens dos seus superiores desde aquela noite em que foi atacado em casa, durante uma ofensiva de guerrilha curda que visava, ao mesmo tempo, o seu apartamento na aldeia e o posto armado situado a um quarto de hora de carro de lá. Tudo isso parecia-lhe insensato.

Indica também que a sua mulher, grávida de dois meses do primeiro filho, e uma amiga dela também estavam em casa quando foram atacados, e preocupou-se ainda mais por elas do que por ele próprio. Acrescenta logo que já sofreu ataques e já participou às operações ofensivas do exército, mas esta foi a primeira vez que se sentiu sozinho. Pelo contrário, deduzia pelo número de mísseis e balas disparados que, no campo adverso, deviam ser uns vinte guerrilheiros. Depois, explica-me como se defendeu quando tentaram desmontar a porta exterior da casa, esperando no entanto impacientemente a ajuda que devia ter chegado ao posto armado. Uma vez esta esperança vã desfeita, ocorreu-lhe a ideia de que o posto também tivesse sido atacado e que os seus amigos talvez tivessem morrido. Esta ideia não foi justificada a seguir. Com efeito, o posto não tinha sido atacado e nenhum dos seus amigos foi ferido nem morto.

Logo depois do ataque, decide mandar a sua mulher longe da região para a casa dos pais. A sua irritabilidade aparece quase simultaneamente com a partida da mulher. Como não aguenta ficar só em casa, começa a passar as noites no posto, o que não resolve o seu mal-estar, pois os transtornos agravam-se. Começam por um desânimo e uma astenia seguidos por perturbações do sono, primeiro com simples dificuldades em adormecer e depois com a aparição de pesadelos dois dias após o ataque. Nos seus sonhos, há uma cena que reaparece constantemente: os guerrilheiros curdos a tentar desmontar a porta, e acorda sempre antes de a ver cair.

Caso clínico (2)

Também se trata de um jovem executivo que se dirige à policlínica por causa de astenia e falta de vontade de viver que evoluem desde há cerca de um mês. Tem o sentimento de que tudo está perdido. Para ele, não é um simples “tudo” mas sim um grande “tudo” que envolve a vida inteira. A vida não tem sentido...é vazia...é um “nada”... A sua cara está marcada por uma tristeza profunda... Fala lentamente e com dificuldade...

Ao cabo de meia hora, só consegui obter dele alguns elementos biográficos: faz quatro anos que está casado, mas desde algum tempo a sua esposa é para ele como uma estrangeira. Aliás, ela mora em casa dos pais com o filho de três anos, numa cidade fora da região. O paciente está no exército desde há três anos e é o seu terceiro e último ano nesta região. Gosta do exército, mas desde que está doente acha que não é feito para esta trabalho. Por exemplo, diz-se incapaz de estar todas as noites emboscado numa zona serrana ao ar livre, embora o fizesse desde o início do Verão com a sua brigada. Tendo em conta o estado do paciente, inibido e prostrado, e a dezena de pacientes à espera em frente do meu consultório, proponho-lhe rapidamente uma hospitalização que ele aceita com resignação.

De acordo com as minhas observações, os primeiros dias de hospitalização são marcados por este estado imóvel do paciente que não pára de repetir que tem noites agitadas por causa da insónia que resiste ao tratamento.

Durante a quarta entrevista, faço-lhe perguntas mais detalhadas a propósito das perturbações do sono: por exemplo, quando apareceu pela primeira vez a insónia? Trata-se de uma insónia parcial ou total? Tem pesadelos?...Vejo-o hesitar…Começa a falar com dificuldade, mexendo constantemente na poltrona e evitando cruzar o meu olhar…O seu discurso é entrecortado por silêncios mais ou menos longos…

Fico então a saber que, há um mês atrás, a sua brigada foi apanhada numa armadilha quando eles próprios estavam emboscados na montanha. Com os primeiros tiros, um soldado que estava perto dele foi atingido na cabeça e morreu “num segundo”. A sua cara estava coberta de sangue. O paciente, desde o seu recanto protegido, ouvia as vozes de dois outros soldados que pediam socorro. Infelizmente, os disparos, que continuaram até a madrugada, impediam-nos de se movimentar… De manhã, só encontraram os seus cadáveres.

Por fim, repete várias vezes, com lágrimas nos olhos, que ninguém poderia ter sido capaz de esquecer uma cena destas. Com efeito, para ele, poder esquecer esta cara cheia de sangue e as vozes sofredoras dos dois soldados é não ser humano… Quando não se pode esquecê-las, não se pode voltar a sentir-se bem como antigamente… É por isso, explica ele mais uma vez, que agora tudo está diferente…e que tudo está perdido…

Caso clínico (3)

Uma noite, durante a guarda, sou chamado pelo serviço de ortopedia a propósito de um paciente hospitalizado desde há cerca de vinte dias, por causa de ferida e fractura do antebraço direito. Queixa-se de insónia.

Quando chego junto dele, encontro-me diante de um homem um pouco agitado. Explica-me com precisão que o seu problema não é a sua ferida como o pensa toda a gente, mas sim a sua falta de sono, ou melhor, segundo as suas próprias palavras, “o sono que esqueceu”…

Quanto à sua ferida, diz-me que se feriu ele próprio pela explosão de um dos seus cartuchos cujo um dos fragmentos metálicos atingiu o seu antebraço. Estavam em confrontação com um grupo de guerrilheiros na montanha e a sua brigada tinha por missão cercá-los… Neste momento, hesita…e retoma o seu discurso explicando-me como se feriu subitamente ao puxar o gatilho.

Perante a sua hesitação e a fim de verificar o que ele disse, pergunto-lhe qual relação haverá entre este incidente infeliz e o seu “esquecimento do sono”, explicando que ele insistia, quando cheguei, sobre o facto de que o seu problema não tinha nada a ver com a sua ferida.

Para minha grande surpresa, acalma-se e evoca uma recordação que o atormenta profundamente. Pouco tempo antes do seu acidente, um dos seus amigos, que fazia parte da brigada, morreu ao pisar uma mina. A imagem deste morto, da roupa rasgada, do sangue escorrendo pelas feridas e sobretudo pela cara, não lhe sai da mente doravante, tanto de dia como de noite.

Ainda lhe falta um mês para cumprir o seu serviço militar mas não sente nenhum prazer, pois, para ele, a vida perdeu o seu encanto. Agora, só pensa em voltar para casa junto da mulher e da filha de três anos, e fechar-se em casa o mais tempo possível.

Caso clínico (4)

Trata-se de um recruta de 18 anos que chegou à região há quase um mês. Foi o seu tenente que o mandou para o hospital por causa de dificuldades relacionais com os outros e da sua morosidade.

Ao primeiro contacto, o paciente revela-se bastante tenso e fechado. Responde às minhas perguntas apenas com respostas breves. Mas esta atitude muda rapidamente em favor de um diálogo livre, permitindo então evocar diversos problemas que encontrou desde que está no exército (penso que esta mudança provem do facto de eu não ter nada a ver com o exército, como lhe mencionei no início da entrevista).

Diz-me também que aceita tomar a responsabilidade pelos incidentes que ocorreram no posto. Tenta ficar quieto e ser amável com os outros mas às vezes acha que perde o controle e faz actos lamentáveis. Isto agravou-se nas últimas semanas mas dura desde há alguns meses - desde que o irmão teve um acidente.

Peço-lhe mais detalhes sobre este acidente. Explica-me então que o irmão sofreu uma intoxicação causada por uma fuga de gás no quarto de banho. A mãe, estranhando a longa duração do banho e a falta de resposta quando chamava pelo filho, pediu ajuda ao outro filho. Este teve que arrombar a porta da casa de banho e encontrou o irmão mais velho nu, com os “olhos vitrificados, estendido no chão”. “Pensei que estava morto” diz, “estava como louco, não sabia o que fazia…”.

A mudança de humor começou com o regresso à casa do irmão que estava no hospital. O paciente, sempre inquieto a seu respeito, não suportava as ausências dele. Exigente, queria que ficasse sempre com ele…Agora, quando o irmão não está, o paciente fica frequentemente invadido por ruminações constituídas pela cena da casa de banho. Sonhos, ou melhor pesadelos, também apareceram mais tarde.

Mais ou menos um mês depois do acidente, o paciente foi ver um médico que lhe receitou um medicamento antidepressivo e estabeleceu o diagnóstico de depressão reactiva.

Comentários

Todos estes casos reflectem os principais elementos característicos da neurose traumática. Mas também apresentam outros pontos comuns que se deve examinar para compreender o terreno ao mesmo tempo social, psicológico e existencial sobre o qual assenta o estatuto desta entidade clínica.

Acho que é necessário especificar, em primeiro plano, as condições bastante particulares do ambiente em que tinham que viver constantemente essas pessoas, muitas vezes privadas até dos prazeres mais comuns: nenhuma ou pouca família, ausência quase total de relações extra-profissionais, uma hierarquia militar e ordens, operações constantes, emboscadas, ataques e contra-ataques…Havia uma necessidade vital - esta necessidade transformava-se rapidamente numa obrigação - de pertencer a um grupo ou de existir unicamente pelo grupo…e tudo isso a despeito do desaparecimento quase total dos traços individuais! Ninguém podia ou devia ter um discurso diferente do discurso guerreiro colectivo, cuja visão do mundo reflecte apenas uma separação rígida e brutal entre o bem e o mal.

Esta separação é devida, talvez, a um processo espontâneo, determinado por vias biológicas, como resposta do organismo vivo perante a ameaça de um perigo iminente, organismo que procura encontrar a salvação na multidão do grupo (os exemplos não são raros entre os animais). Mas esta separação é devida também e sobretudo a um processo que depende das leis do campo social onde tudo é ideologicamente legal em termos de provocação, de falsificação da realidade, de mediatização dos preconceitos, de revalorização e de reutilização dos mitos, das crenças, dos ideais…unicamente no intuito de levar o indivíduo, remodelando-o, a dedicar-se “voluntariamente” ao serviço do grupo. É preciso, portanto, saber ou ter de escolher, sempre a partir de uma posição dualista que estabelece uma linha de exclusão, entre o herói e o cobarde, entre o bom e o mau compatriota, entre o guerreiro feroz e o pacifista medroso.

Em semelhantes condições, é portanto normal que o indivíduo sinta o efeito deste discurso ideológico que reduz toda a realidade a uma única tomada de posição idealizada, no seu psiquismo mais profundo onde os desafios antigos estão prontos a ser reactualizados, a reaparecer sob forma de diversos sintomas histéricos, ansiosos ou caracteriais…

Todavia, falta saber se este ambiente singular produz ou não um efeito determinante na evolução da neurose traumática. Mesmo se existe uma vulnerabilidade anterior ao trauma, que se deve ora ao enfraquecimento do “eu” por causa de tensões externas extremas, ora a uma predisposição individual resultando de uma personalidade neurótica, é difícil, no entanto, observá-lo no discurso do paciente. Com efeito, este discurso, bastante pormenorizado quando é preciso contar o evento traumático, torna-se menos rico e até pobre assim que tentamos afastar-nos deste assunto para falar de outra coisa. O paciente dá pouca importância aos eventos do passado, não percebe porque deveria falar da mulher, dos filhos, do trabalho, ou simplesmente da vida quotidiana; quando se lembra de um acontecimento do passado ou quando pensa no futuro, só o faz penosamente, às vezes com tristeza ou com um sentimento de absurdo.

Quero citar aqui as palavras, ou deveria dizer as reflexões, de um dos nossos pacientes que seguimos agora desde há alguns anos, a propósito da vida e dos outros: “as pessoas que andam de um lado para outro como formigas, dizia, eu não compreendo porque é que ainda trabalham quando não sabemos porque é que estamos neste mundo, nem porque existimos, e porque nascemos e se vamos morrer um dia…”.

O sentido perdido da vida!

A vida “sem sentido”, “vazia”, tornou-se um “nada” que perdeu o encanto! Estas eram as declarações dos quatro pacientes dos quais lhes resumi as histórias. Falavam, aliás como a maioria dos outros casos, como se tivessem conhecido o outro aspecto da vida, a outra realidade, mais autêntica do que a primeira, passando obrigatoriamente, e por um acaso infeliz, por uma experiência que os aproximou da morte. E esta experiência é qualificada, não só pelos pacientes, mas sim de modo unânime, como excepcional, violenta ou fora do comum. A relatividade só implica então a reacção de cada um, se aceitamos a ideia que, no evento traumático, há algo que ultrapassa a nossa capacidade de imaginação. Se somos incapazes de imaginar, é por causa de um contra-senso do trauma que nos põe perante o nosso próprio fim, a nossa destruição total, a uma existência impensável…É a proximidade da morte no tempo e no espaço e o efeito de surpresa inesperado desta proximidade, assim como o seu aspecto excepcional, que tornam difícil e até impossível encontrar um sentido a este trauma. É por esta razão que a repetição compulsiva da recordação, que tem como objectivo o domínio retroactivo da excitação, nunca tem êxito na neurose traumática.

Com efeito, não é correcto utilizar a palavra “recordação”, porque esta é, na maioria das vezes e sobretudo no início da doença, apenas uma cena, uma imagem a despeito do resto, que faz intrusões forçadas na consciência do paciente: “a porta arrombada” por exemplo, ou “a cara cheia de sangue do morto acompanhada por vozes sofredoras”, ou ainda “os olhos vitrificados do irmão”…

A impossibilidade de falar desta cena aos outros, talvez porque as palavras não são suficientes para descrevê-la ou porque há remorsos, vergonha ou um sentimento de culpabilidade que atormentam o paciente. Esquecer esta cena incómoda, apagá-la, isto é o que quer o paciente ou o que diz querer…

A cena também corta a percepção da vida num “antes” e num “depois”. A vida antes da cena torna-se o lugar do investimento nostálgico com uma mistificação do passado, no qual o paciente não conhecia nenhum medo, nenhuma impotência, nenhum conflito nem tensão… Pelo contrário, a vida depois da cena leva a marca do absurdo, da desvitalização da vida, do vazio absoluto de um futuro onde não se pode antecipar nada…

O paciente encontra-se encerrado num outro momento e num outro lugar – o momento e o lugar do trauma – onde, como habitante, só há ele e o outro, ora visível ou invisível como agressor (eis a persecução: o que haverá atrás da porta?), ora como morto, morto mumificado no seu cadáver amputado, retalhado, desestruturado, tal como um testemunho eterno de um desejo arcaico realizado, (eis o complexo de Édipo, a ambivalência na identificação, o sentimento de culpabilidade: o luto patológico do paciente que queria preservar toda a sua memória para poder ficar humano, por exemplo). É nesta agressão vivida como um castigo excessivo, ou nesta concretização selvagem, não habitual, deste desejo de morte arcaico que o paciente se fixa no momento do trauma, perdendo esta ligação necessária com a imagem do pai – com aquele que só podemos e devemos matar simbolicamente. Uma vez esta ligação perdida, perdemos então qualquer possibilidade de existir, de partilhar e até de poder falar…

Qual era a minha relação com estes pacientes?

Uma relação, ou seja uma atitude, e não obrigatoriamente no sentido “terapêutico”, mas também ao mesmo tempo social, humana e afectiva que amplia o sentido da primeira, e assim responsável do insucesso ou do êxito.

Porque indicar um quadro não implica somente algo do interior da pratico-teórica medical, psiquiátrica ou psicoterápica, mas também algo do exterior desta, como as condições de vida por exemplo, que devem ser constantemente tomadas em consideração na relação. É preciso saber o que fazer ou conhecer as suas próprias reacções quando, no meio de uma entrevista, se ouve, ao mesmo tempo que o paciente e com ele, o barulho dos tiros ou as sirenes dos blindados que perturbam de repente o sossego do consultório.

Eis as condições:

Primeiro ao nível profissional...

Eu era o único psiquiatra do hospital, mas também da cidade, e era ao mesmo tempo responsável das consultas na policlínica e do serviço onde hospitalizei cerca de trinta pacientes durante este período.

O número dos pacientes consultados e o número dos consultantes num dia só era variável (no mínimo 3, no máximo 52), mas, em média, andava à volta de 12 pacientes por dia. Para dar um exemplo, dei pouco menos de 400 consultas na policlínica durante estes dois meses.

As consultas começavam às 9 horas, mas os horários também eram muito variáveis porque dependiam da chegada por grupo dos pacientes de cada unidade militar, acompanhados por uma brigada armada por causa da insegurança das estradas. Por esta mesma razão, as consultas tinham que acabar antes das 15 horas para que cada grupo voltasse à sua brigada.

Passava duas vezes no serviço, de manhã e à noite. Durante esta curta passagem, limitava-me a observar brevemente o estado de cada paciente, o seu aspecto e o seu contacto. Por falta de tempo, as entrevistas individuais eram reservadas aos pacientes que necessitavam de apoio.

Havia apenas uma enfermeira, muito jovem e inexperiente, encarregada de fazer todo o trabalho do serviço e da policlínica.

...E ao nível pessoal!

Tive frequentemente altos e baixos. Porquê? Agora que alguns meses passaram, só encontro uma única resposta: foi por causa da realidade sócio-económica e política do meu país que tive realmente a ocasião de descobrir e de sentir depois de quatro anos de ausência.

Seja como for, estava lá, tinha de desenrascar-me o melhor que podia!

Estes casos e outros três ainda, todos neuróticos traumáticos, segui-os durante uma hospitalização. Esta impunha-se como necessária e importante, não por causa do meu interesse pessoal relativamente a este quadro clínico, mas por causa dos elementos ansio-depressivos severos que acompanhavam o fenómeno de repetição. A palavra “acompanhar” talvez não está correcta. Porque na maioria das vezes, tinha que pensar primeiro nesta repetição e depois procurá-la por entre estes elementos que me impeliam facilmente a diagnosticar uma depressão, o que, aliás, muitas das vezes não era errado. Mas o problema apresentava-se como uma resistência aos meios terapêuticos utilizados, quando eu insistia unicamente neste estado depressivo sem ter sabido tratar do conteúdo repetitivo dos sonhos ou das ruminações de ideias relativas ao trauma. Do ponto de vista teórico, actualmente, apenas existem hipóteses de um possível parentesco entre a neurose traumática e a depressão, mas na prática vemos constituir-se rapidamente um círculo vicioso com interacção positiva entre os dois quadros clínicos.

Era preciso então quebrar este círculo vicioso actuando nos dois aspectos: tratar o síndrome ansio-depressivo com os poucos medicamentos de que dispunha e tentar desviar o paciente da sua fixação ao trauma no âmbito de uma relação psicoterápica.

Quanto aos medicamentos, como antidepressivos dispunha de Anafranil e Laroxyl (mas era difícil pedir a avaliação inicial aos meus confrades compatriotas entre os quais, um fez-me amavelmente entender, no princípio, que era demasiado exigente; percebi a mensagem e não insisti mais). Também dispunha de Prozac fornecido pelas farmácias da região, a partir de outra cidade situada um pouco mais ao oeste, por minha própria iniciativa. Quanto aos sedativos, tive menos sorte, só dispunha de Valium e Largactil; utilizava-os portanto como ansiolíticos e como hipnóticos. A prescrição destes últimos produtos não era a priori uma regra, mas eram sempre adaptados na clínica e muitas vezes a pedido dos pacientes. Tendo em conta esta experiênçia particular, queria salientar dois pontos que eu acho importantes. O primeiro é que os resultados não eram muito diferentes dos que obtemos aqui, apesar da possibilidade incomparável na escolha de medicamentos que dispomos em França. O segundo ponto é a ausência de abuso ou de reivindicações pelos pacientes no que diz respeito aos medicamentos ou às suas doses. Sem esquecer a contribuição e a ajuda indiscutível da farmacologia à nossa prática, pergunto-me mesmo assim até que ponto somos influenciados, como médico ou como doente, pela “sociedade de consumo” nos nossos hábitos de prescrições de medicamentos.

Do ponto de vista psicoterápico

Falei-lhes, há pouco, da minha relação obrigatoriamente mais geral, mais ampla com os meus pacientes. Era inevitável já que vivíamos debaixo do mesmo tecto, eles como pacientes e eu como médico. Mas era impossível vestir a máscara de médico 24 horas sobre 24. Com efeito, o hospital também era o meu lugar de estadia onde comia, dormia, sorria e conversava, onde ouvia música, me enervava, olhava para as estrelas à noite, sentado em frente da porta do hospital. Estava na mesma fila de que os pacientes diante da única cabine telefónica que nos ligava ao outro mundo... Também foi neste hospital que, às vezes, tive de cruzar alguns pacientes quando me chamavam em urgência à noite apesar do meu hálito aromatizado pelo “raki” (licor originário de Turquia), enquanto que era proíbido beber álcool no exército.

E eis o detalhe talvez mais importante no início de uma relação: não me apresentava a eles unicamente como um simples homem, mas também como um indivíduo que procurava situar-se o mais possível fora das interdições de uma máquina de guerra que estava sempre presente, até no hospital, com o seu discurso ideológico, suas regras e suas próprias leis, suas continências militares, suas ordens, sua hierarquia...

Lembro-me, por exemplo, da minha grande surpresa perante os pacientes de um quarto de ortopedia que começaram a agitar-se nas camas com os seus gemidos e os seus pensos para me apresentar os seus cumprimentos militares, quando me viram à porta. E isso porque comportavam-se assim com o seu cirurgião-executivo que estava habituado a estas provas de respeito.

Não era um militar. Dizia-lhes. No início, por razões pessoais, e depois para facilitar ainda mais esta relação simples da vida quotidiana que permitia no entanto o reaparecimento da conversa, da conversa sobre tudo e nada – as avarias telefónicas, um jogo importante na televisão, a política... Havia um, por exemplo, que me contava as virtudes da pesca, outro falava-me das virtudes da música árabe e oferecia-me cassetes para eu partilhar a sua opinião e talvez o seu prazer...

O risco era um escape da relação terapêutica pela banalização; mas era neste ponto que o meu poder médico intervinha, o que me permitia criar uma distância terapêutica na qual eu forçava os pacientes, encorajava-os a voltar à cena traumática...

Assim, a partir da vida quotidiana partilhada, conseguíamos criar pouco a pouco a possibilidade de uma outra partilha, a da cena, do momento crucial...

O paciente precisava desta repetição verbalizada para me aceitar como terceiro na solidão imaginária onde estava fixado a um outro “agressor” e/ou “agredido até à morte”, mas também para encontrar palavras para cada detalhe de modo que esperávamos esgotar juntos os não-ditos da sua experiência. Sentia que eu também precisava destas repetições a fim de sair do âmbito do mirone, da minha posição que eu vivia com uma espécie de empatia excessiva, ou de uma pressa em compreender e dar razão ao paciente.

Era possível então, sobre esta base, apoiar o paciente, evitando muitas vezes interpretações apressadas e arriscadas por causa da fragilidade do “eu” do sujeito e, pelo contrário, procurando cada vez desdramatizar os detalhes, “os olhos vitrificados” por exemplo. No fim de uma entrevista, falei ao paciente, sorrindo, de uma “fobia dos vidros”, o que também o fez sorrir... ou então a propósito “dos sofredores” perguntei ao outro paciente se estava à espera que os feridos cantassem. Primeiro, ficou surpreendido em relação a mim, talvez, mas depois em relação a uma realidade...

Quando lhes disse que evitei interpretações... Não sei se cada acto, cada palavra ou cada atitude não funcionam como uma interpretação no paciente, que estejamos consciente disso ou não!

Há o exemplo do primeiro caso que lhes contei e que me tinha falado, no primeiro dia da sua hospitalização, do seu passatempo: o desenho. No fim da entrevista, falei-lhe de retomar o seu passatempo se quisesse durante a sua hospitalização. Três dias depois, mostrou-me o seu primeiro desenho. E fez mais outros quatro até a sua saída. Foi para o primeiro que dei uma interpretação, comparando a totalidade da parte escura, excepto o meio onde havia um buraquinho luminoso, com uma gruta dentro da qual tínhamos a impressão de estar encerrados, não sabendo muito bem se queríamos saír ou ficar.

Guardei este desenho no meu consultório, aliás como o fiz com os outros.

A evolução foi rápida, tanto na escolha das cores, desde o preto-cinzento ao azul-preto e castanho-amarelo, como na precisão dos temas. No segundo desenho por exemplo, já estávamos lá fora e avistávamos, embora dificilmente, montanhas ao longe, e em frente à cena, havia três árvores esmagadas pelo vento. O último desenho, feito na véspera da saída do paciente, contrastava completamente com o primeiro. Representava uma marinha com as suas ondas, seus pássaros e seu navio. O desenho todo reflectia a tranquilidade.

Foi nestas condições e com uma atitude terapêutica bastante clássica que pude no entanto obter resultados satisfatórios. Os pacientes, no fim da sua hospitalização, sofriam muito menos, com uma diminuição importante da angústia e a desaparição total ou quase dos temas depressivos. Observava-se também a regressão das ruminações que tinham um conteúdo repetitivo. Esta regressão acompanhava-se de uma recuperação normal das funções e dos interesses quotidianos. Os sonhos, eles, ainda que atenuados e menos frequentes, resistiam.

O único verdadeiro insucesso resultou de um paciente que, com efeito, se diferenciava dos outros sobre um ponto essencial que, na minha opinião, agravava o seu conflito. Era o meu único paciente curdo entre os neuróticos traumáticos. Para ele, existia uma relação mais directa entre o trauma quotidiano e a sua experiência traumática pessoal. Já estava com baixa médica desde há dois meses quando o vi. Pertencia a uma força militar do sul do país e estava na região para ficar na sua família, na sua aldeia. Tendo em conta a sua reserva, era difícil estabelecer com ele uma relação como aquela que descrevi mais acima. Ao cabo de uns vinte dias mais ou menos, pediu-me que lhe concedesse uma licença para voltar para casa. Aceitei e prolonguei de dois meses suplementares a sua baixa médica. Dado que só me faltavam dez dias para cumprir o meu serviço militar, não lhe marquei nenhuma consulta para depois. Curiosamente, foi ele que me veio ver espontaneamente duas vezes, com um ar sempre tímido e frágil, para me trazer ovos frescos e pão ainda quente da sua aldeia.

Seria bom reflectir sobre o sentido das suas visitas! E não somente a nível psicológico, mas também a outros níveis, social, histórico ou político...