ABERTURA DO SEMINÁRIO “O que é o Estrangeiro?” por Pierre-Stanislas Lagarde
domingo 27 de Setembro de 2009, por Pierre-Stanislas LAGARDE
ABERTURA DO SEMINÁRIO
Pierre-Stanislas Lagarde
Decidimos então dedicar o seminário deste ano ao tema do Estrangeiro. Esta escolha não é fruto do acaso, é significativa por diversas razões. A primeira significação possível é a da redefinição do nosso tema que, lembro-lhes, se inspira da nossa prática psicoterápica com estrangeiros. Mas também pode-se ver na escolha deste tema – o Estrangeiro – uma abordagem, desta vez, frontal deste tema, uma maneira radical de o enfrentar que iria além destas diversas dimensões que são a Cultura, o fenómeno migratório , o traumatismo; dimensões que encarámos aliás durante os quatro primeiros anos deste seminário.
Esta confrontação tornou-se ainda mais árdua. Primeiro, porque a perspectiva na qual desejamos inscrever o Estrangeiro não é cultural, sociológica, ou até política, mas depende especificamente da acção psicoterápica que é a nossa, e além do mais, de uma psicoterapia que se vale de inspiração psicanalítica. Acreditem-me, a definição do estrangeiro é muito mais fácil de compreender aos níveis político e histórico por exemplo, do que ao nível psicanalítico.
Também é árdua porque o objecto ao qual nos confrontamos – o Estrangeiro – é para ele mesmo uma noção de uma rara complexidade.
Por outras palavras, ocorrem-nos as perguntas seguintes:
1° A que trata da pertinência ou não da noção mesma do Estrangeiro dentro de uma teoria dita de inspiração psicanalítica. O Estrangeiro, com efeito, poderá prevalecer-se – à falta de abarcar qualquer disposição neurótica como a histeria ou a neurose obsessiva por exemplo – do estatuto de conceito no âmbito da teoria psicanalítica?
2° E tratando-se justamente de “conceito”, podemos perguntar-nos se o termo“estrangeiro", consideração psicanalítica à parte, depende ou não desta categoria; se possui, como se questionava Freud a propósito da “Estranheza”, um “fundo de sentido que lhe é próprio”?
Digamo-lo sem rodeios: tudo nos leva a pensar o contrário.
Evoquei antes a complexidade do termo. Façamos um pouco de etimologia. O termo “estrangeiro” [étranger em francês] provém do latim extraneus; é, pelo menos, o que nos informam os dicionários de francês. Procurei então noutro dicionário, o Gaffiot [dicionário francês-latim], para ver o que extraneus significava para os latinos da Antiguidade. Deixo-lhes apreciar o desvio de sentido: extraneus representa o que é “exterior”, o“de fora”; encontramos depois uma segunda acepção da palavra que significa o que “não é da família”; em terceiro lugar, encontramos a noção de “estrangeiro” tal como a conhecemos.
O Estrangeiro aparece então como o “de fora”, aquele que, de uma maneira ou de outra, está no “exterior”. A pergunta seria de saber a “quê” este estrangeiro é exterior e fora de “quem” ele se situa. Porque aqui está o carácter falacioso de todo o raciocínio que utiliza o estrangeiro: invocar o Estrangeiro pressupõe, de facto, que possuímos ao princípio a noção do que não o é !
Por outras palavras, a dialéctica que recorre à noção de estrangeiro é, no fundo, um raciocínio que procede por “eliminação”. Com efeito, é Estrangeiro tudo o que não é “nós”! Permitam-me insistir sobre este ponto: a questão do Estrangeiro, sem dúvida, é uma questão falaciosa ao mesmo tempo que é perigosa na medida em que desvia ostensivamente para outra pessoa uma questão que, na realidade, trata da constituição implícita de um “Nós”. Este ano, a verdadeira questão será de destacar este “Nós”, apreciar a sua consistência.
De passagem, chamo-lhes a atenção para a segunda acepção latina de extraneus. Pois fornece um primeiro elemento de resposta muito apreciável: o “Nós” revela-se aqui o que delimita o círculo da família.
Aquando de uma das discussões preparatórias deste ano de seminário, Jean-Marie Heinrich tinha proposto conceber o Estrangeiro como “o outro longínquo”. Contudo, tenho a sensação de que esta maneira de chamar o Estrangeiro pode ser fonte de confusão. Com efeito, o seu uso pode provocar a focalização da atenção sobre o estatuto assim como sobre a natureza – dita longínqua – deste outro. Também hesito em recorrer a esta figura por esta outra razão: parece-me, com efeito, que tudo o que diz respeito à noção de alteridade depende apenas da singularidade de cada um. Por outras palavras, o outro é “o outro que eu”, o outro é o que faz que eu não sou “o único”. Acho que é desta maneira que a problemática do outro deve ser concebida, isto é como questão “pessoal”. O Estrangeiro, no entanto, estabelece a relação que existe entre um “outro” – ou até “outros” – e uma instância, não singular mas sim colectiva, o que chamámos anteriormente o “Nós”. É aqui provavelmente que reside a originalidade da problemática do Estrangeiro em relação à do “outro”.
Tudo o que diz respeito a esta questão do “Nós” e do “Outro” é, repito-o, extremamente importante. Ainda mais porque, estes últimos anos, o nosso mundo está sujeito a intensas misturas de populações que tornam a levantar a questão, com uma acuidade particular, da presença e da tolerância do Estrangeiro; um mundo dito moderno onde todavia vemos erguer-se juntamente os extremismos e a intolerância mais inquietantes e mais bárbaros.
Disse previamente que aquele que recorria ao Estrangeiro procedia segundo um raciocínio por eliminação. Substituamos o termo “eliminação” por o de “exterminação”... De repente, imagens tristemente contemporâneas, lamentavelmente actuais, vêm à ideia: Ruanda, ex-Jugoslávia, Argélia etc... É bem isto, entre outras coisas, que eu defino como a extrema urgência da questão do Estrangeiro.
Permitam-me, com o risco de parecer talvez um pouco pesado, insistir ainda sobre uma outra série de questões prévias. Mas o que está em jogo é tão crucial que vale a pena insistir, mesmo se dou a sensação de me repetir.
Previamente levantámos a questão do estatuto conceptual ou não da noção de Estrangeiro. Um conceito não é algo sem importância. O pior, é quando o conceito se torna ideologia e que o seu usuário, descontente com a polarização da sua própria vida, dispõe-se a organizar a dos outros. É inútil dizer que me situo aqui na pior das situações. Na maioria dos casos – quero falar das personalidades que escaparam à paranóia – o conceito não é menos do que uma espécie de operador que possui efeitos reais sobre o nosso modo de pensar, de ver as coisas, de viver com os outros, em suma sobre tudo o que abrange a ideia um pouco confusa, mas tão falante, de existência. Não se vive “sobre” ideias – sejam elas concebidas ou preconcebidas – mas “com” ideias. E estas, às vezes, manipulam-nos– sem sabermos – a seu bel-prazer.
Tudo isto para dizer que a ideia que fazemos do Estrangeiro é – e de longe! – relacionada com as práticas que teremos com ele. Para ser mais claro: segundo a ideia que fazemos do Estrangeiro, a prática psicoterápica será diferente; e não pensem que se trata aqui de simples subtilezas...!
Neste caso, penso na teorização que um Tobie Nathan pôde produzir. Podem ter uma amostra do seu conteúdo e das consequências práticas que resultam dele no livro que este autor publicou recentemente na editora francesa Odile Jacob [1]. As pessoas que estavam na livraria Kleber [livraria estrasburguesa] no dia onde Tobie Nathan veio apresentar o seu livro talvez notaram, pelas trocas de opiniões que tivemos com este senhor, que eu não concordava com a sua maneira de considerar o Estrangeiro e com as modalidades psicoterápicas que resultam deste modo de ver.
Esta noite, não vou voltar a este debate – teremos certamente a oportunidade, mais tarde ou mais cedo, de o reabrir durante este seminário – mas eu só quero recordar-lhes alguns “desenlaces concretos” deste tipo de modelização do Estrangeiro.
Primeiro, que se revela necessário para Tobie Nathan recorrer, num momento ou noutro durante as suas psicoterapias com os estrangeiros, à figura de um perseguidor.Esta noite, não posso, no âmbito desta abertura do seminário, desenvolver os pormenores desta história. Mas não se esqueçam deste primeiro resultado: a necessidade de um perseguidor.
Recordem-se também deste outro resultado, não psicoterápico, mas cuja incidência ocorre a nível social. Com efeito, o autor, no seu último livro – vejam lá – chega a preconizar a reconstituição dos guetos nos bairros...! [2]
Se este tipo de texto cair nas mãos de um reformador social ao idealismo apaixonado e com falta de inspiração para a sua nova sociedade, imaginem-se o desastre a vir. Porque aqui o gueto é entregue chave na mão: encontramos no livro toda a armadura teórica que justifica a sua realização.
É por esta razão que digo que os conceitos podem ser instrumentos perigosos, instrumentos existenciais que, conforme as circunstâncias e a alquimia obscura que reina em algumas zonas da personalidade – zonas aliás claramente mais extensas e manifestamente expressivas em certas pessoas – podem transformar-se em terríveis operadores tirânicos cuja opressão só pode ser comparada com a sua desumanidade absoluta. Toda a dialéctica com o conceito tornou-se portanto impossível , é uma ordem fria que se apodera dos nossos corpos e dos nossos espíritos. Eis a ideologia.
É por isso que decidimos, aquando da próxima sessão, começar a nossa reflexão por o que a clínica nos pode ensinar. E por que não tomar a noção de “sentimento” como ponto de partida?
Também tentaremos testemunhar o “sentimento de estranheza” que teremos podido perceber durante as nossas curas realizadas com estrangeiros; tentaremos captar as impressões, as palavras, as situações e mais não sei quê que terá podido despertar em nós este sentimento do estrangeiro.
E para parafrasear Freud mais uma vez, digamos que esforçar-nos-emos por “deduzir o carácter oculto comum a todos esses casos”. Uma ocasião não desprezível de voltar à clínica...Seja dito de passagem, lembro-me de um provérbio dos salmos de que gosto muito; diz-se nele que “a Verdade brotará da terra”. Se, de um certo modo, consideramos que a verdade retoma os enunciados da teoria psicanalítica, a terra onde esta afunda as suas raízes consistiria na experiência clínica. E é esta terra que lhes proponho remexer em breve.
É de notar que um tal modo de proceder – interrogar-se sobre o sentimento de estranheza que aparece no terapeuta – reduz consideravelmente o campo das nossas investigações: aqui ocupamo-nos apenas de um dos protagonistas do duo psicoterápico; no caso presente, do terapeuta.
Com efeito, que é do sentimento de estranheza para o próprio Estrangeiro? É por isso que, obviamente, é necessário desenvolvermos os nossos meios de investigação. O estudo deste sentimento de estranheza será uma segunda linha de força da nossa reflexão deste ano.
Ponhamos mais cartas na mesa, todas elas representando temas a partir dos quais este ano, provavelmente, será estruturado.
É evidente que esta ideia de “sentimento do Estrangeiro” é amplamente insuficiente, sobretudo quando se trata de dar conta deste processo durável e dinâmico que representa um trabalho psicoterápico.
Seria certamente mais frutuoso, a esse respeito, falar de “momentos do Estrangeiro”, momentos sem dúvida não muito afastados deste par de forças que se defrontam e ao qual a física mecânica deu este mesmo nome.
Demos algumas ilustrações a alguns destes momentos possíveis do Estrangeiro:
1° É, por exemplo, para o terapeuta que exerce no âmbito de uma consulta para estrangeiros, este primeiro tempo do encontro com o paciente. Um dos efeitos eventuais deste tipo de contexto sendo que o terapeuta estaria “à espera” da estranheza. Mas é diferente para o paciente que, muitas das vezes, inscreve-se sem o saber neste contexto. Este, com efeito, na maioria das vezes não se apresenta como estrangeiro, mas sim como doente procurando um alívio da sua pena.
2° Uma outra figura possível é quando estes atendimentos de pacientes estrangeiros começam, pelo contrário, com uma sensação de “familiaridade tranquilizadora”: tudo se sucede como se se lidasse com qualquer outro paciente autóctone. E de repente, quando menos se contava, surge o sentimento de estranheza.
Será necessário explorar estes “momentos do Estrangeiro”, compreender se possível a razão e as condições da sua aparição. Este conjunto de perguntas poderia muito bem resumir-se na fórmula seguinte: “ A partir de quando e de quê se convoca o Estrangeiro? Pelo contrário, a partir de quando deixamos de recorrer a esta noção, de sentir este sentimento?”
Mais uma coisa: estes momentos do Estrangeiro, por mais variados que sejam, são verdadeiramente o sinal de que um “limite” foi ultrapassado. Introduzir esta noção de limite gera outra: a de “lugares” que seriam diferentes.
Toda uma série de lugares é facilmente concebível. Há o lugar das crenças religiosas que, por várias vezes durante a História, desenharam as fronteiras de outros tantos conflitos. Da mesma maneira, podemos evocar os lugares antagonistas das identidades nacionais. Mas encontraremos também neste mesmo género, os lugares que a cor da nossa pele marca, branco contra negro, que realizam um contraste bonito, ao qual se junta às vezes, ainda hoje o vermelho.
Todos estes lugares são o resultado de diversos conjuntos de representações colectivas, de identidades valendo-se do mesmo título. Os seus traços comuns são a pertença e o seu contrário, a exclusão.
Outros, mais subtis, ainda são imagináveis.
Os “lugares do tempo”, onde se elaboram, se constroem, se desfazem para se reconstruírem ou ainda para se repensarem, as histórias nacionais assim como a do indivíduo.
Outro exemplo possível é o dos “lugares de discursos”, onde os desafios consistem na posse ou não da palavra.
Ou ainda os “lugares de gozo”, um termo já mais específico da nossa disciplina. Gozo cujas facetas se multiplicam logo que o consideramos: gozo ilusório do estar-juntos do socius; gozo nos laços de parentesco; gozo na partilha suposta – quando não é real – da fantasia. Será necessário explorar estas diferentes facetas.
Enfim, quero salientar que a própria etimologia da palavra “estrangeiro” sugere outra categoria de lugares, desta vez a nível espacial. Com efeito, vimos que extraneus significava inicialmente “o exterior”. De modo que o estrangeiro chama a nossa atenção para estas modalidades de localização que a oposição interior/exterior representa. Aquando da próxima sessão, terei a oportunidade de voltar a falar desta distinção. Apreciaremos então toda a amplitude das consequências ligadas a esta distinção dentro/fora.
Mas voltemos a esta primeira noção de limite que eu destaquei mais atrás; e isto sob forma de uma hipótese de trabalho. Com efeito, podemos perguntar-nos se por acaso o momento do Estrangeiro não aparecerá na altura da superação de um limite? E seria precisamente no tempo desta passagem que surgiria a “Figura do Estrangeiro”. Agora resta saber em que consistiria precisamente este limite, fonte de semelhante metamorfose do outro...
Eis, em poucas palavras, a ementa deste ano. Fico por aqui no que respeita à abertura deste quinto ano de seminário e apresso-me a dar a palavra ao nosso primeiro convidado, Michel Larivière.
- Popularidade
- 694 x
- Palavras-chave :
