Introdução ao volume “O traumatismo e o pavor”

Traduzido do francês por Joana SALGADO SILVA

domingo 27 de Setembro de 2009, por Dr Bertrand PIRET

 

INTRODUÇÃO

Neste fim de ano de 1995, a publicação deste quarto volume de “Psiquiatria, Psicoterapia e Cultura(s)” com a participação e o apoio do Conselho da Europa, inscreve-se no movimento de uma grande campanha contra a intolerância levada a cabo pelo Conselho durante este ano.

A associação Palavra sem Fronteira felicita-se por ter podido contribuir deste modo e à medida dos seus modestos meios a esta acção.

É preciso dizer que o tema escolhido como assunto de reflexão para o ano condizia infelizmente muito bem com as preocupações do Conselho da Europa e os eventos dramáticos que transtornam o nosso mundo desde estes últimos anos.

Lembremos que Palavra sem Fronteira reúne na sua equipa psicoterapeutas e psicanalistas envolvidos em diferentes níveis no trabalho com os estrangeiros e, entre eles, os psiquiatras e psicólogos que dirigem a consulta de Psiquiatria Intercultural dos Hospitais Universitários de Estrasburgo, criada desde há cerca de seis anos.

São estes mesmos psiquiatras e psicólogos que, progressivamente, viram chegar a esta consulta os refugiados bósnios muçulmanos deste fantasma ensanguentado que hesitamos doravante em denominar de ex-Jugoslávia, definitivamente apagada pelo assassínio e a raiva.

Á respeito dos testemunhos que esses homens e essas mulheres nos relataram, o título escolhido para este volume – “O traumatismo e o pavor” – pode parecer fazer má figura. Ao ouvir estes relatos insustentáveis, foi mais a mudez que nos apertou muitas vezes a garganta. “Uma crueldade desumana”...foram ainda as palavras que nos vieram à ideia até que o Professor Claude BARROIS recordasse com insistência que a crueldade animal não existe, que se trata apenas de uma história de homens.

Da mudez do terapeuta ao seu sentimento de revolta, é estreito o caminho que o psicoterapeuta deve tomar quando atende as pessoas que passaram por estes traumatismos... De resto, pudemos medi-lo ao longo deste ano durante os debates que animaram o seminário, seguramente a questão política foi tão tratada como a preocupação psicoterápica. “Deslize”! dirão alguns...Deslize certamente, mas incontrolável e feliz, contanto que ocorra fora do contexto psicoterápico. Tudo é diferente a partir do momento em que nos envolvemos com o paciente neste contexto.

Porque o silêncio, seja ele o mais digno, não é uma posição suficiente tal como a revolta não é admissível mesmo que ela fosse a mais justa. A crueldade, nos avisou Claude BARROIS, é humana. Como tal, temos que falar dela, falar com ela. Neste caso, significa saber falar com o sobrevivente que a sofreu na pele. Tal foi de facto a grande questão que se prolongou este ano todo: “como falar com o paciente traumatizado”?

No entanto, inicialmente, a questão do traumatismo apareceu-nos de augúrios muito menos trágicos. Recordemos em duas palavras os fundamentos desta interrogação.

Desde o início da actividade da consulta, um quadro clínico muito singular chamou a nossa atenção: aquele que muitos trabalhadores imigrados realizam – todos imigrados desde há pouco tempo – depois de um acidente de trabalho, independentemente da sua gravidade. Mas não entraremos em pormenores sobre esta sintomatologia particular. Não esqueçamos apenas que nos apercebemos que esta sintomatologia estava relacionada com o quadro clínico de neurose pós-traumática tal como é habitualmente descrito e que Bertrand PIRET recorda na sua intervenção. Contudo, até hoje, parece que esta relação ainda é amplamente desconhecida.

Isso explica esta primeira questão de uma possível extensão da neurose pós-traumática clássica a toda uma série de situações que a priori lhe escapam. Fala-se deste relacionamento possível entre diversas situações traumáticas nas intervenções de K.KHELIL, P.S LAGARDE e B. PIRET, onde encontraremos alguns elementos teóricos.

Esta tentativa de relacionamento tem por consequência relegar pouco a pouco para segundo plano o evento traumático – ou então encarar este de um ponto de vista claramente menos espectacular e catastrófico como o fazemos habitualmente (por exemplo, à maneira de Alain BIHR na sua intervenção sobre o “ Traumatismo ordinário”) – e dar ênfase às diversas componentes que acompanham o acidente. Uma diversidade que nos leva a falar de “ cortejo traumático” que reúne as componentes seguintes: as diferentes entidades institucionais (jurídica, administrativa, política, etc...), mas também a sexualidade, a morte e enfim a origem e a temporalidade, dimensões tão difíceis de compreender. As intervenções deste ano abordam sucessivamente todas estas componentes e tentam compreendê-las melhor.

Além disso, ao adoptar tal modo de proceder – por um lado, reavaliar a intensidade do evento traumático em si mesmo (não se trata forçosamente de uma catástrofe) e por outro lado, destacar os factores acompanhando o evento – podemos observar que este conjunto de perturbações tanto físicas como psicossociológicas aplica-se com uma rara precisão ao que podem viver muitos estrangeiros. Enfim, ao substituir o evento traumático (definido por arrombamento corporal físico na sua acepção clássica) por este outro evento que representa o fenómeno migratório e as consequências que resultam deste, são essencialmente os pacientes imigrados que ficam afectados por semelhante concepção alargada da neurose traumática.

Tal foi, em todo o caso, uma das hipóteses mais importantes que este ano de reflexão permitiu avançar, enquanto que talvez se tornasse mais discreto ao longo das diversas contribuições.

Porque, entretanto, tivemos que voltar às origens da neurose traumática. Com efeito, são os períodos de guerra que deram origem às primeiras descrições deste quadro clínico e à emergência do conceito. O psiquiatra Fatih KARAMAN relata-nos aqui um destes períodos de guerra. Este testemunho e esta experiência da guerra permitem justamente chamar a atenção sobre a importância dos momentos que surgem imediatamente após o traumatismo. Com efeito, a existência deste momento desfasado do traumatismo é posta em evidência, realçada: o efeito traumático produz-se numa segunda fase. Isto explica esta noção de um entretanto, tão essencial para a criação e a eficiência de um atendimento psicoterápico. Este regresso às origens do traumatismo, verdadeira “catábase” segundo as palavras de Claude BARROIS, devia, em breve, levar-nos inevitavelmente ao inferno do inferno.

Se, no mundo ocidental, numa época de entusiasmo considerada por nós próprios acabada, se declarava que todos os caminhos iam dar a Roma, hoje não hesitaremos em afirmar que os caminhos do mundo contemporâneo, mesmo sem sabendo a destinação onde nos conduzem, param necessariamente nas salas de tortura repartidas hoje em dia em quase todo o mundo, assim como nesta antecâmara da morte que foi antigamente Auschwitz. Julgamos que toda a reflexão actual sobre o traumatismo digno desse nome não pode dispensar-se de denunciar estas salas de tortura e evocar Auschwitz. As primeiras representam uma ofensa permanente ao mundo simbólico humano, a segunda simboliza o que chamaríamos naturalmente a sua ferida inaugural; e pensamos que esta ferida nunca cicatrizou.

Para esta descida ao coração dos infernos, foram-nos necessário guias com andar e mão firmes. Para o visitante, o risco neste caso não reside numa ameaça real qualquer mas sim no aparecimento imprevisto da contemplação suspeita e duvidosa de uma série de experiências que, por causa da sua natureza própria, são capazes de desencadear, no mais íntimo de cada um, a fantasmática sadomasoquista, com a recrudescência de perversidade que cresce no seu seio.

Em regra, parece muito difícil relatar o sofrimento humano, mas é tanto difícil testemunhar o horror humano. Neste caso, nenhum erro é permitido, que se trate de compromisso, de acréscimo de interesse ou de qualquer outra hesitação no relato que se faz..., e isso pelas razões supra mencionadas. A este respeito, são admiráveis as grandes qualidades humanas e científicas das intervenções de Willy SZAFRAN e Yannis THANASSEKOS sobre Auschwitz e da contribuição de Hugo URRESTARAZU a propósito das sequelas da tortura. Trata-se verdadeiramente do inferno do inferno porque nestas situações assistimos à convergência inaudita da grande variedade do que abarca a noção de traumatismo, tal como a concebemos. Ou seja, a destruição sistematicamente realizada do que “mantém direito” o ser humano: o seu corpo, a sua sexualidade, enfim as suas crenças e os seus fundamentos institucionais, políticos, parentais, afectivos. Como viver depois de ter sofrido semelhantes traumatismos? Vive-se mal, a julgar pelo destino de muitos sobreviventes. Vive-se mal ainda e de outra maneira, quando pensamos no que é transmitido, contra vontade, deste traumatismo espantoso às gerações futuras: o recente suicídio de Sarah Kofman seria um exemplo paradigmático se este acto, precisamente pelo seu aspecto espectacular, não corresse o risco de ocultar os efeitos a longo prazo, muito mais sonsos e discretos, que a existência de uma faixa etária traumatizada pode causar. A este respeito, as hipóteses que Lionel BAILLY sugere são assustadoras.

Entre as consequências a longo prazo do traumatismo, podemos também ter em conta a de uma história – colectiva ou individual – doravante irremediavelmente caracterizada por um “antes” e um “depois”. Com efeito, existe um “antes” e um “depois” o acidente tal como existe um “antes” e um “depois” Auschwitz, e entre este “antes” e este “depois” tudo será diferente, não se sonhará mais e nunca mais se falará da mesma maneira.

Esta ruptura no decurso do tempo da existência ou da História é examinada por Jean-Marie HEINRICH durante a última intervenção deste ano. Esta contribuição leva, sem dúvida, a reconsiderar a asserção freudiana clássica – que declara que o inconsciente ignora a dimensão temporal – à luz da neurose traumática. Isso explica a função heurística que a neurose traumática exerce realmente relativamente à teoria psicanalítica.

Quanto à psicanálise e às modalidades teóricas que propõe, permitimo-nos fazer o comentário seguinte: na medida em que a neurose traumática aparece, em muitos casos, como um efeito da obra humana e que também afunda nas profundezas do ser humano as raízes mais sórdidas e menos idealistas que se pode imaginar, esta representa um grande desafio para a psicanálise.

Com efeito, o que a neurose traumática aponta ostensivamente, o que aliás traz à luz às vezes, não é mais do que, digamo-lo assim, a violência insensata situada no coração da relação humana. Uma violência que se tornou periférica para as nossas sociedades ocidentais democráticas na medida em que é considerada como um fenómeno de subúrbio – à escala de uma cidade ou mundial. Esta violência ainda, que não pára de ser atenuada numa aparência de familiaridade ou até neutralizada como por exorcismo por meio do desfile de suas imagens que passam diariamente e indiferentemente no ecrã das nossas televisões.

Mas este ecrã não é uma protecção inexorável; também não possui a potência virtual do estádio do espelho que reflecte apenas a própria agressividade daquele que ficou a mirar-se nele, correndo o risco de se identificar com ela. A violência de que se trata aqui pode sair do ecrã da televisão, é capaz de penetrar e se instalar para muito ou pouco tempo nas nossas realidades e nos nossos corpos. E esta violência – caso notável de um ponto de vista psicanalítico – é verdadeiramente a de um outro real “que nos quer mal”.

O outro como origem do mal, o outro que faz o mal e já não aquele a quem o atribuímos...é, sem dúvida, uma das questões essenciais a que nos confrontou o estudo da neurose traumática este ano. Dito isto, e para concluir esta breve apresentação do quarto volume de “Psiquiatria, Psicoterapia e Cultura(s)”, desejamos para nós todos, homens e mulheres privilegiados que desfrutamos da paz desde há meio século, poder continuar assim...

Os organizadores.